Inês

A Inês está a crescer. Já fez cinco anos e agora vai para a escola. Já sabe as letras e os números e faz desenhos muito giros. É tão bom crescer, não é? Quando uma pessoa cresce, crescem as pernas, os braços, o tronco e cresce também o coração. E depois, quando o coração fica grande, voa. Então, é porque a pessoa cresceu muito. A Clara, que é prima da Inês e também está a crescer, gosta muito do Peter Pan. Um dia perguntou ao pai: Ó pai, como é que se faz para voar? Agora tu já sabes, Inês. É só preciso fechar os olhos, acreditar com muita força, abrir os braços e… já está. Num instante chegas à Terra do Nunca.

Manhã cedo

Manhã cedo, levanta o centro da sala de jantar, pousa a tela, e ali fica, embrulhada no silêncio, pela manhã fora, a entreter as horas felizes com que ocupa o tempo. Tem 81 anos, nascida em Amarante, e uma vida igual à de tanta gente que, como ela, vive sozinha. Viúva há 28 anos, com os filhos casados, descobriu há pouco tempo o prazer de pintar. E agora é a sua paixão. Foi por Deus – diz. Não saberia como ocupar o tempo. Fez outras coisas. Costurou, bordou, teve outras actividades durante a vida. Agora encheu-se, já não tem paciência. Agora do que gosta mesmo de fazer é pintar. Precisa de estar Sol. Só pinta de manhã. Podendo, todos os dias. Precisa de luz. A vista também já está cansada. Às vezes até se esquece de fazer o almoço. Quando vai a ver, as horas que já são. O resto do tempo vê televisão. E faz a lida de casa. Pintar é o seu hobby. E tem muito prazer nisso. É feliz. E sente-se orgulhosa. Este quadro foi o neto, de 16 anos, que o desenhou. Tem jeito. É talentoso. Mas foi o quadro que a fez mais “sofrer”. Várias vezes, quando os filhos lhe ligavam, manifestava a sua frustração. Como se a luz da manhã se tingisse de sombras e a alegria da realização se esmorecesse. Depois, como um sonho que lentamente se vai realizando, assim o quadro se completou como obra realizada.

(Este texto foi apresentado no catálogo de uma exposição onde a minha mãe expôs um quadro.)

As pessoas

Gosto de olhar para as pessoas. De lhes esquadrinhar o rosto. Gosto de inventar histórias que lhes contem a vida. As pessoas são um espelho de nós mesmos. Refletimos o que somos no modo como pensamos e olhamos os outros. Os outros devolvem-nos a imagem do que somos no modo como nos projectamos neles. Partilhamos com todos aquilo que constitui a essencialidade do que somos, a alma de Deus. De algum modo, a nossa vida funde-se com a vida de toda a gente.

Não estamos sós. Porém, vivemos encerrados nas fronteiras do ego. E o universo que nos habita reduz-se à sombra que os nossos passos deixam no caminho.

O domínio do ego

Sentado no sofá, olho por entre os quadrados da porta de vidro o céu encavalitado no monte. À varanda, observo a paisagem: as casas, a relva onde, às vezes, existe um cavalo, as árvores, a estrada, em baixo, onde os carros passam continuamente, destinos variados.O mundo existe e existo eu.

Perante o espectáculo deslumbrante da natureza, o ego recua e reduzimos-nos à dimensão insignificante da nossa estatura. Deixamos de pensar. Não queremos mais saber quem somos. Todas as questões reduzem-se a sentir o que os olhos vêem.

Teremos que desejar ainda mais alguma coisa? Teremos que acreditar que haverá ainda mais alguma coisa para além daquilo que queremos e desejamos? Saberemos o que queremos? Ou tudo não passará de uma paisagem que nos entra pelos olhos dentro para nos deixar quietos e harmonizados com a natureza do que somos?

Podíamos limitarmo-nos a ser "apenas" como o vento, o sol e a chuva. Ser. Não desejar mais que o azul do céu. Criar aí as nossas raízes e crescer como uma árvore num horizonte de pássaros. E voar...

Mas não. Vivemos sob o domínio do ego. Subjugamos a liberdade do ser aos ditames do ego. Recusamos o universo de Deus para sermos o deus do nosso universo.